Ensinar ou não gramática?

Começaria explicando ao leitor que a pergunta acima lembra muito a célebre frase de Shakespeare: “Ser ou não ser, eis a questão”. Diante dessa pergunta o que resta ao professor de Língua Portuguesa? Caso a opção seja ensinar a gramática, corre-se o risco de o professor ser considerado tradicional, e tradicional aqui – no sentido mais corriqueiro da palavra – é sinônimo de ultrapassado. Se optar por não ensiná-la, também pode ficar na iminência de ser tachado de que nada ensina ou que “enrola” os alunos.

Então, o que fazer? O tema é bastante complexo e gera muita polêmica, principalmente, quando se trata do ensino da língua materna nas escolas. Duas opções de respostas, a meu ver, podem ser dadas: a primeira é ser a favor da gramática, mas ressaltando sua importância dentro do texto. Nesse caso, a gramática em hipótese alguma é negada, porém nem sempre o texto é realmente explorado como deveria ser. Servindo antes como argumento para que se analisem regras gramaticais.

Esse tipo de metodologia adotada por muitos professores, diga-se de passagem, é muito comum ser presenciado nas escolas. Ou seja, ensina-se com e a partir do texto, no entanto, é a gramática que ganha notoriedade, prestígio nas aulas de Português. Conceitos como coesão, coerência, (inter)textualidade, intencionalidade, inferência e gêneros textuais simplesmente são esquecidos em nome da gramática no texto.

A segunda opção dos professores é posicionar-se contra o ensino da gramática. Muitos defendem que o estudo de regras gramaticais, bem como o de frases soltas, completamente descontextualizadas e sem sentido para o aluno, não mais contribuem para o desenvolvimento das competências lingüísticas. O professor, nesse caso, é um crítico constante da gramática e tem consciência de que o ensino de Língua Portuguesa precisa e deve ser significativo para o aluno.

As duas opções de respostas convergem para uma só: a de que o ensino de gramática merece e precisa ser revisto, principalmente, porque com os avanços da ciência Linguística, o que era antes objeto de discussão e análise no ensino de Língua Portuguesa – como é o caso do estudo da gramática e de sentenças gramaticais – passou a dar lugar às novas abordagens metodológicas e conceituais em torno do que é de fato ensinar e aprender língua materna nas escolas.

As aulas de português pouco absorvem dos avanços em relação às novas teorias surgidas em torno da Linguística Textual, sobretudo dos anos 80 para cá, quando a gramática começou a ser questionada. Muito se sugeriu e propôs, contudo, o ensino ainda continua o mesmo: centrado na gramática.

O que se nota é que o professor de Língua Portuguesa, em sua maioria, tem consciência dos debates em torno das teorias da linguagem. Entretanto, ainda há muita resistência quanto às inovações propostas pela Linguística, e, sobretudo pelos PCNs, visto que ele (professor) se depara com inúmeros questionamentos e dúvidas sobre o fazer pedagógico e termina sem saber direito como aplicar os ensinamentos linguísticos na sala de aula, gerando, assim, muita insegurança em relação à mudança de paradigma.

A esse respeito Castilho (2000:13) ressalta:

“As mudanças sociais do país e o atual momento de transição de um paradigma científico para outro colocaram os professores de Língua Portuguesa numa situação desconfortável com respeito a “o que ensinar”, “como ensinar”, “para quem ensinar” e, até mesmo, “para que ensinar”.

Essa insegurança do professor frente aos novos desafios em relação ao ensino de Língua Portuguesa pode ser fruto de vários fatores como, por exemplo, o pouco conhecimento do professor frente às pesquisas ligadas aos estudos Lingüísticos; a falta de leitura sistemática e de literatura atualizada para embasamento pedagógico; como também a falta de tempo do professor para preparar atividades atraentes voltadas para o desenvolvimento das competências comunicativas do aluno.

Acredita-se que esses fatores têm contribuído para que o professor não se desvincule dos métodos tradicionais quanto ao ensino de língua portuguesa. Porém, o problema não está em ensinar gramática, como bem diz Irandé Antunes no seu artigo “Os mitos que se têm em torno do ensino da gramática” - publicado nos Anais do congresso Internacional de Práticas Educacionais (2005) -, “A solução, portanto, não é deixar de ensinar gramática; é, ao contrário, ensinar muito mais que gramática”.

Cabe ao professor, portanto, desenvolver as competências linguísticas do aluno, pensando sempre que o conhecimento não pode ser estanque nem tampouco obsoleto. Ensinar ou não gramática não é uma questão simplesmente de escolha e, sim, de desafio do professor, até porque “ninguém fala, ouve, lê ou escreve sem gramática, é claro; mas a gramática sozinha é imensamente insuficiente (Irandé, 2005)”.

Por Eliete Carvalho